Retomada da Pintura – década de 80

Diante dos acontecimentos políticos e econômicos que influenciaram a arte em todos os seguimentos, supomos que cada momento e movimento da arte são desencadeados por influências e desejos próprios dos artistas, que de alguma forma, passam o que sentem em suas obras.

Na decáda de 80, mudanças e reformas políticas aconteceram no Governo de Gorbatchovisky, que desencadeou a queda do muro de Berlim. Além dessas, outras mudanças acabram por influenciar o mundo todo, como  a crise do petróleo que quase parou o mundo, a pandemia da AIDS, que acometeu várias classes sociais, trajetórias e mudanças políticas no Brasil, com a eleição direta de um civil, levando a queda da ditadura militar. Fatos esses que levaram a uma mobilização nacional para a efetivação das diretas já, “contaminando” os brasileiros com uma suposta liberdade. Os artistas celebraram esse momento, “um momento de euforia, buscando as ruas como se estivessem preparando uma festa de democracia” (MAM -RJ, p. 12, 1995).

A retomada da pintura tem como característica principal a liberdade de expressão e pensamento, levando o artista a um misto de pintura e prazer. Trabalharam em telas “enormes”, diferentes materialidades, visitando diversos “tempos’ históricos da história da arte, deixando de lado o “tempo linear”. Sobretudo, podendo fazer um passeio aos estilos da Grécia Antiga, ou ao Impressionismo, Cubismo, enfim, uma mistura de estilos, tempos, com suportes diferenciados, uma explosão de ideias.

Alguns artistas, como Jorge Gingle, tiveram influência no neo-expressionismo da Europa, que já há muito tempo estava acontecendo. Muitos deles utilizavam uma linguagem de deboche, na figuração imagens extraídas do cotidiano, das histórias em quadrinhos, caricaturas, o gesto marcado mostra uma introspecção e explanação do seu interior.

Na abstração, linhas com sobreposição de tinta, ruas e cidades. Essas pinturas nos remetem ao urbano, à metróploe, às rendas do nordeste, aos bordados, às alegorias arquitetônicas, muitos elementos extraídos do que consideramos “artesanato”.

“Apesar de todos os problemas, a Geração 80 acabou por concluir efetivamente para uma visão mais ampla da realidade e da cultura brasileira, identificando-se como seu tempo e com os anseios do povo brasileiro (MAM-RJ, 1995)”

Citamos abaixo alguns artistas do período, cada um com suas características e singularidades:

ANA HORTA – Nasceu em Bom Despacho – MG/1957 e faleceu em BH/MG em 1987. Foi gravadora, professora, desenhista e pintora. Pintou a intensidade das cores, bem como os contrastes entre o preto e branco da gravura.

ALICE VINAGRE – Nasceu em João Pessoa, na Paraíba em 1950. Utiliza-se da figuração como elemento da construção poética de sua obra.

ANGELO VENOSA – Nasceu em São Paulo no ano de 1954. Participou do Ateliê da Lapa, no Rio de Janeiro. Lá construiu suas primeiras obras em tridimensão.

BEATRIZ MILHAZES – Nasceu no Rio de Janeiro em 1960. Em suas obras, utiliza de muitas cores e formas, criando tensões entre figura e fundo.

CARLITO CARVALHOSA – Nasceu em 1961, em São Paulo. Utiliza-se de uma materialidade divergente, como cera de abelha que mistura a pigmentos, dando ênfase ao gesto pictórico. Foi integrante da Casa 7.

DANIEL SENISE – Nasceu no Rio de Janeiro em 1955. Nesse período produziu obras que denotassem volumes, ocupando a tela por inteiro.

FÁBIO MIGUEZ – Nasceu em 1962, em São Paulo. Também foi integrante da Casa 7. Sua obra nesse período traz uma expressividade peculiar, com grandes pinceladas e cores fortes.

JOSÉ LEONILSON – Nasceu em 1957,  e faleceu em 1993. Artista de gande importância para essa década. Contribiu com suas pinturas, gravuras, bordados, vídeos e instalações. Foi um artista versátil, que se colocava na obra por inteiro. Suas obras remetem ao nordestino que era, com influências da literatura de cordel e da religiosidade.

Muitos outros artistas trabalharam juntos, construindo essa “Nova geração 80″.

podemos citar ainda:

Jorge Gingle, Leda Catunda, Nuno Ramos, Paulo Monteiro, Rodrigo Andrade, Hilal Sami Hilal, Luis Zerbini, Flávia Ribeiro, Karin Lambrechet dentre outros.

Para os interessados em se aprofundar nesta temática sugiro abaixo algumas bibliografias e sites:

AGUIAR, Nelson (curador). Um roteiro do Século - um breve roteiro para um panorama complexo: a produção contemporânea (1980 a 1994). São paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1994.

ALZER, Luiz André.; CLAUDINO, Mariana. Almanaque dos anos 80. Rio de janeiro: Ediouro, 2004.

BASBAUM,  Ricardo (org.) Arte contemporânea brasileira: Texturas, dicções, ficções, estratégias. Rio de janeiro : Rios Ambiciosos, 2001.

BERTELLO, Maria Augusta. Palavra em Ação: minimanual de pesquisa em Arte. Sl: Clarauto, 2003.

CATÁLOGO: Onde está você geração 80?. Rio de Janeiro: Centro Cultural do Banco do Brasil, 12 de julho a 26 de setembro, 2004.

CHATEAUBRIAND, Gilberto (Col). Anos 80: o palco da diversidade. Rio de Janeiro: MAM, 1995.

FARIAS, Agnaldo. Arte Brasileira Hoje. São Paulo: Publifolha, 2002.

JANSON, H.W. História Geral da Arte: o mundo moderno. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

MANGE, Ernest robert de Carvalho (Apres.) BR 80 – Pintura Brasil – Década de 80. São Paulo: Itaú Cultural, 1991.

STRICKLAND, Ph.D. Carol. Arte Comentada: Da pré-história aos pós-moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

WOOD, Paul at al. Modernismo em disputa: a arte desde os anos quarenta. Tradução Rosa Bueno. São Paulo: Cosac & Naify, 1998.

Sites:

http://www.itaucultural.com.br

http://www.bb.com.br/cultural

http://www.mam.org.br

http://www.mac.usp.br

Finalizamos este artigo, parafraseando os Titãs, que traduzem de forma simplificada o desejo dos artistas desse período, através de sua música:

“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte” (Titãs, 1980).

(Sonia)

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3 Comments.

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